sexta-feira, janeiro 26, 2007

A propósito de medo, a Licínia ofereceu-me este presente

O MEDO

O meu Pai dizia:

O medo não existe.

E eu avançava pelo quarto escuro, devagar,

os olhos muito abertos,

a afastar as sombras

dos ramos da nogueira ao luar.

Mãos de lobo

a tentar agarrar os meus brinquedos.

O medo não existe.

E eu dava mais um passo,

já muito perto da boneca

que me chamava (eu ouvia)

no tampo da mesinha à cabeceira.

Finalmente a tocava e de pronto a agarrava.

Retrocedia, com passos estugados,

em direcção à luz por momentos roubada.

O coração batia e uma alegria nova me invadia.

Meu Pai sabia tudo.

O medo não existia.


Ainda hoje não tenho relutância

em entrar no quarto escuro

onde não há boneca

nem sombras da nogueira.

Apenas eu com o medo futuro.


Licínia Quitério

http://sitiopoema.blogspot.com

Mafra, Fevereiro de 2006

5 comentários:

bettips disse...

Bom, quando podemos acreditar. Lindo, o fluir da infância no poema! Obg L porque sabes. Obg M porque passas a mensagem: tentas mostrar o ponto luminoso ao longe, na floresta de nós. Abçs

Zé-Viajante disse...

Um complemento admirável para as fotos que vão sendo publicadas. Parabéns

peciscas disse...

Gostei muito deste texto.
Fez-me, de algum modo, lembrar um outro, escrito, há muitos anos, pelo Manuel Alegre.

Nina Owls disse...

belissimo poema.

Anónimo disse...

a licínia é incomparável. bem haja uma pelo poema e outra por publicá-lo. beijinhos.