segunda-feira, julho 30, 2012
Faremos uma pausa durante o mês de agosto.
Em princípios de setembro voltarei aqui, espero.
Boas férias para todos onde quer que estejam.
M
AGENDA PARA JULHO DE 2012
Foi assim, com as nossas 13 fotografias abaixo devidamente identificadas que respondemos ao desafio Fotografando as palavras de outros sobre estes excertos de um livro muito bonito:
«Agora que é Inverno, recupero a memória fotográfica do último dia de férias de Verão. Uma memória que se repete: todos os anos, no dia em que volto as costas às férias, após subir a duna íngreme que me afasta do mar, olho fixamente para trás, como se aquele fosse o derradeiro dia de praia.
Na verdade, regresso muitas vezes àquela mesma praia, mas de facto só um ano depois, quando volta o Verão, é que ela me é devolvida. Só então volto a tomar a praia como minha, reacendendo-se inesperadamente, como num turbilhão, um sopro de felicidade absoluta. (...)
Se olho uma última vez para a praia, é porque sei que vislumbro ali um tempo parado, batido pelo sol. É um fugaz momento, mas que trago no regresso à cidade. Depois, basta-me fechar os olhos e ficar com a certeza que na memória tenho tudo. O calor, o vento e um mundo de ondas perfeitas. Muitas delas imaginadas. Estou convencido que a nostalgia de um lugar é mais rica se conservada como nostalgia, como se a sua recuperação significasse a morte da ideia que fazemos desse mesmo lugar. Agora que se passam semanas sem ver mar, vai-me bastando esse pulsar sereno que guardo do dia em que virei as costas ao Verão. Eu, por mim, estou convencido da superioridade daquele último olhar furtivo.»
Se olho uma última vez para a praia, é porque sei que vislumbro ali um tempo parado, batido pelo sol. É um fugaz momento, mas que trago no regresso à cidade. Depois, basta-me fechar os olhos e ficar com a certeza que na memória tenho tudo. O calor, o vento e um mundo de ondas perfeitas. Muitas delas imaginadas. Estou convencido que a nostalgia de um lugar é mais rica se conservada como nostalgia, como se a sua recuperação significasse a morte da ideia que fazemos desse mesmo lugar. Agora que se passam semanas sem ver mar, vai-me bastando esse pulsar sereno que guardo do dia em que virei as costas ao Verão. Eu, por mim, estou convencido da superioridade daquele último olhar furtivo.»
O Sal na Terra, Pedro Adão e Silva, Autor e Bertrand Editora
(A Minha Estação Preferida, texto anteriormente publicado na revista SurfPortugal, em fevereiro de 2009)
quinta-feira, julho 19, 2012
AGENDA PARA JULHO DE 2012
Dia
29 ou 30 *
- Fotografando
as palavras de outros sobre
estes excertos do livro abaixo referenciado:
«Agora
que é Inverno, recupero a memória fotográfica do último dia de
férias de Verão. Uma memória que se repete: todos os anos, no dia
em que volto as costas às férias, após subir a duna íngreme que
me afasta do mar, olho fixamente para trás, como se aquele fosse o
derradeiro dia de praia.
Na verdade, regresso
muitas vezes àquela mesma praia, mas de facto só um ano depois,
quando volta o Verão, é que ela me é devolvida. Só então volto a
tomar a praia como minha, reacendendo-se inesperadamente, como num
turbilhão, um sopro de felicidade absoluta. (...)
Se olho uma última vez
para a praia, é porque sei que vislumbro ali um tempo parado, batido
pelo sol. É um fugaz momento, mas que trago no regresso à cidade.
Depois, basta-me fechar os olhos e ficar com a certeza que na memória
tenho tudo. O calor, o vento e um mundo de ondas perfeitas. Muitas
delas imaginadas.
Estou convencido que a
nostalgia de um lugar é mais rica se conservada como nostalgia, como
se a sua recuperação significasse a morte da ideia que fazemos
desse mesmo lugar. Agora que se passam semanas sem ver mar, vai-me
bastando esse pulsar sereno que guardo do dia em que virei as costas
ao Verão. Eu, por mim, estou convencido da superioridade daquele
último olhar furtivo.»
O
Sal na Terra,
Pedro Adão e Silva, Autor e Bertrand Editora
(A
Minha Estação Preferida,
texto anteriormente publicado na revista SurfPortugal, em fevereiro
de 2009)
* Como já vos informei por email, só publicarei as nossas fotografias no dia 29 ou 30.
E vou adiantando que faremos uma pausa durante o mês de agosto.
E vou adiantando que faremos uma pausa durante o mês de agosto.
14. Zé-Viajante
Passo,
de relance, e só vejo uma porta velha, duma casa velha e com muros
velhos. Quando, mais atento, volto a passar, já
vejo tudo por fora e por dentro. Aquela casa foi um autêntico
palácio, de gente simples, humilde talvez, mas Verdadeira. Que criou
raízes. Tal como a casa.
Zé-Viajante
13. Zambujal
Não
é com as palavras que se bate à porta, mas com o punho, ou com os
nós dos dedos.
De dentro, não vem o olhar porque a porta o impede, mas vêm as palavras: Quem é?
De fora, cruzando-se com as palavras que de dentro vieram, logo as palavras respondem e atravessam a porta fechada: Sou eu, comadre!
Trocadas as palavras, abre-se a porta e encontram-se os olhares.
De dentro, não vem o olhar porque a porta o impede, mas vêm as palavras: Quem é?
De fora, cruzando-se com as palavras que de dentro vieram, logo as palavras respondem e atravessam a porta fechada: Sou eu, comadre!
Trocadas as palavras, abre-se a porta e encontram-se os olhares.
Zambujal
12. Teresa Silva
Uma bela e
misteriosa ruína. O que teria sido? Uma casa, um celeiro, um
qualquer anexo? O que se esconde para lá da porta vermelha escura,
já por si de cor insólita neste contexto? Valerá a pena
"recuperar" para a modernidade este espaço? Ou será
preferível não tocar em nada até que o tempo se encarregue de o ir
destruindo sem, contudo, lhe tirar a beleza?
Teresa
Silva
11. Rocha/Desenhamento
A
porta, ainda viva e tratada, encerra uma casa antiga e modesta, pode
estar a dizer-nos que alguém a fechou e
saíu ou que a fechou depois de entrar. Alguém viverá isoladamente
nesta pequena casa, lugar que nos deixa uma ideia de solidão, de
interioridade, vida mais encoberta do que descoberta? Ou silêncio e
vazio. Olhar e ver o real é um trajecto conceptual enganador. Um
dia, fotografando casas arruinadas de uma aldeia do Algarve serrano,
registei muitas portas fechadas, secas, rodeadas de um silêncio de
assombro. Num caso, a porta ainda lembrava o seu vai-vem, entradas e
saídas. Apetecia abrir a porta, espreitar, chamar por alguém. A
porta cedeu facilmente, madeira rangendo por si e no chão. «Está
alguém aí?»
Ninguém respondeu. Poeirenta e sombria por dentro, nunca ninguém mais responderia ao chamamento. Nem os ratos no rumor das suas furtivas corridas.
A imagem que vemos parece revelar a conservação da porta e a habitabilidade do seu interior, num contexto antigo e poético.
Olhar, ver, compreender. A percepção visual, por vezes, muitas vezes, parece revelar-nos uma coisa que não passa, afinal, do seu contrário.
Ninguém respondeu. Poeirenta e sombria por dentro, nunca ninguém mais responderia ao chamamento. Nem os ratos no rumor das suas furtivas corridas.
A imagem que vemos parece revelar a conservação da porta e a habitabilidade do seu interior, num contexto antigo e poético.
Olhar, ver, compreender. A percepção visual, por vezes, muitas vezes, parece revelar-nos uma coisa que não passa, afinal, do seu contrário.
Rocha de Sousa
10. ~pi
Do
parto da parede se abriu a passagem - porta de ser porta, porta sem
postigo, porta caladinha e remendada.
Confere os pés e ordena:
- Entra! - a porta
Confere os pés e ordena:
- Entra! - a porta
~pi
9. Mena M.
O
amanhã é sempre uma porta fechada, a do ontem também já fechou.
Por vezes vivemos "entre portas".
É nessas alturas que a erva cresce nas fendas das memórias...
É nessas alturas que a erva cresce nas fendas das memórias...
Mena
8. Mac
As
aldeias ficam vazias,Já
não se ouve o riso das crianças,
Já não se sente o cheiro da comida ao lume...
Ficam apenas as portas trancadas, vigilantes silenciosas dos nossos passos...
Já não se sente o cheiro da comida ao lume...
Ficam apenas as portas trancadas, vigilantes silenciosas dos nossos passos...
Mac
7. M.
Oh!
Que vejo eu ali?
Um retângulo de chocolate. Daqueles que desafiam a minha gulodice, embrulhados em papel de prata de chocolate culinário. Mesmo ali à beira do micro-ondas, para que não fiquem esquecidos. Depois da sopa amornada, depois do segundo prato estaladiço, a aguardar o momento da sobremesa dos meus almoços, logo atrás da fruta. Doçura indispensável. A barrar-me os dentes, a derreter-se-me na língua. A lembrar-me os irmãos Grimm e a história Hänsel und Gretel. Também ao meu redor esvoaçam passarinhos, entre o céu e os prédios altos presos à rua, e eu espreito-os. Pousam no parapeito exterior da janela da cozinha, a sacudir no bico alguma migalhita trazida de outro lado na pressa do voo. Mas, ao contrário dos dois irmãozinhos, por enquanto não preciso de espalhar migalhas de pão no caminho para o encontrar no regresso a casa. Quando, por distração, as deixo cair no chão, apanho-as logo. Com pá e vassoura. A pá e a vassoura usadas pela Cinderela nas tarefas caseiras impostas pela madrasta má e pelas irmãs invejosas?, perguntarão os leitores mais entusiastas de contos tradicionais. Não, esta pá e esta vassoura pertencem-me e juntam pedacinhos da minha infância retirados da imagem desse livro antigo de capa amarela brilhante onde uma jovem loira, com um vestido azul e sapatinhos de cristal, dançava nos braços de um príncipe encantado vestido de branco.
Um vício diário o de comer retângulos de chocolate e desembrulhar memórias.
Um retângulo de chocolate. Daqueles que desafiam a minha gulodice, embrulhados em papel de prata de chocolate culinário. Mesmo ali à beira do micro-ondas, para que não fiquem esquecidos. Depois da sopa amornada, depois do segundo prato estaladiço, a aguardar o momento da sobremesa dos meus almoços, logo atrás da fruta. Doçura indispensável. A barrar-me os dentes, a derreter-se-me na língua. A lembrar-me os irmãos Grimm e a história Hänsel und Gretel. Também ao meu redor esvoaçam passarinhos, entre o céu e os prédios altos presos à rua, e eu espreito-os. Pousam no parapeito exterior da janela da cozinha, a sacudir no bico alguma migalhita trazida de outro lado na pressa do voo. Mas, ao contrário dos dois irmãozinhos, por enquanto não preciso de espalhar migalhas de pão no caminho para o encontrar no regresso a casa. Quando, por distração, as deixo cair no chão, apanho-as logo. Com pá e vassoura. A pá e a vassoura usadas pela Cinderela nas tarefas caseiras impostas pela madrasta má e pelas irmãs invejosas?, perguntarão os leitores mais entusiastas de contos tradicionais. Não, esta pá e esta vassoura pertencem-me e juntam pedacinhos da minha infância retirados da imagem desse livro antigo de capa amarela brilhante onde uma jovem loira, com um vestido azul e sapatinhos de cristal, dançava nos braços de um príncipe encantado vestido de branco.
Um vício diário o de comer retângulos de chocolate e desembrulhar memórias.
M
5. Licínia
Passo
a passo, pedra a pedra, casa a casa.
Desde a gruta, desde o bicho, desde a carne.
Assim se dizem as coisas. Assim se fazem as casas.
Assim se fecham as portas. Assim nos doem os dias.
Ombro a ombro, cara a cara, beijo a beijo.
Assim se fez o amor. Já não se faz o amor.
Resta a pedra sobre a pedra e a porta sempre fechada.
Cresce a erva, estala a cal, e o silêncio da ferrugem
é o sangue contra a porta. São os óxidos do tempo,
são as lágrimas viúvas, nevoeiros à desfilada
na garupa das cidades. Quase mortas as cidades.
Licínia Quitério
Desde a gruta, desde o bicho, desde a carne.
Assim se dizem as coisas. Assim se fazem as casas.
Assim se fecham as portas. Assim nos doem os dias.
Ombro a ombro, cara a cara, beijo a beijo.
Assim se fez o amor. Já não se faz o amor.
Resta a pedra sobre a pedra e a porta sempre fechada.
Cresce a erva, estala a cal, e o silêncio da ferrugem
é o sangue contra a porta. São os óxidos do tempo,
são as lágrimas viúvas, nevoeiros à desfilada
na garupa das cidades. Quase mortas as cidades.
Licínia Quitério
4. Justine
Por
esta porta entrei na minha infância. Era exactamente assim, a
entrada da casa. A porta fazia ruído ao abrir, mas lá dentro, no
pátio, havia silêncio, flores e o Sady, sempre disposto a brincar
comigo. A um canto, rente à parede de pedra, um manta onde
descansávamos, eu a fingir que lia, ele a dormir. Era exactamente
assim, a entrada da casa. Ou talvez não, mas é assim que a recordo…
Justine
3. Jawaa
As
telhas que cobrem a casa, os beirados, aquele arranjo de zinco a
recolher as águas, a cal da parede descuidada a deixar transparecer
remendos de cimento, os cactos enfeitando as pedras, os degraus
pesados, tudo me é familiar como a roupa de todos os dias.
Só aquela porta fechada me incomoda.
Só aquela porta fechada me incomoda.
Jawaa
2. Bettips
Não
vale a pena! Não posso virar a cara!
Qualquer porta fechada, ou casa abandonada à minha frente, me dão vontade de espreitar: se alguém estiver a jeito, até pergunto "como, quando, porquê".
Ora aí está um murete baixo, um degrau, de onde poderei avistar um gato, um toco de videira, uma roda ferrugenta de tirar água dum poço, um lixo disperso que me falará eventualmente "do tempo", dos desaparecidos habitantes, de misérias ou luxos esquecidos.
Curiosa da vida dos outros? Não sou: curiosa das coisas, serei!
***
Relembro uma coisa fantástica que me (nos) aconteceu em férias, há mais de duas décadas. Visitei o Palácio de Estói (agora "Pousada de Faro" de algumas estrelas), completamente arruinado mas com fachadas, estátuas e jardins lindíssimos, falando com o guarda que lá estava na altura...
Evidentemente que fico agradada que tenha sido recuperado mas em "pousada de luxo" só se lá passar "for a drink". Pois fico com a memória da minha curiosidade satisfeita (com fotografias, claro).
E tudo a propósito de portas e casas abandonadas - para não me lançar ou enveredar pelos meus costumados e antiquados "não há direito"!
***
Assim, Licínia, contarás a história que saberás estar atrás dessa porta cor de sangue velho?
Qualquer porta fechada, ou casa abandonada à minha frente, me dão vontade de espreitar: se alguém estiver a jeito, até pergunto "como, quando, porquê".
Ora aí está um murete baixo, um degrau, de onde poderei avistar um gato, um toco de videira, uma roda ferrugenta de tirar água dum poço, um lixo disperso que me falará eventualmente "do tempo", dos desaparecidos habitantes, de misérias ou luxos esquecidos.
Curiosa da vida dos outros? Não sou: curiosa das coisas, serei!
***
Relembro uma coisa fantástica que me (nos) aconteceu em férias, há mais de duas décadas. Visitei o Palácio de Estói (agora "Pousada de Faro" de algumas estrelas), completamente arruinado mas com fachadas, estátuas e jardins lindíssimos, falando com o guarda que lá estava na altura...
Evidentemente que fico agradada que tenha sido recuperado mas em "pousada de luxo" só se lá passar "for a drink". Pois fico com a memória da minha curiosidade satisfeita (com fotografias, claro).
E tudo a propósito de portas e casas abandonadas - para não me lançar ou enveredar pelos meus costumados e antiquados "não há direito"!
***
Assim, Licínia, contarás a história que saberás estar atrás dessa porta cor de sangue velho?
Bettips
1. Benó
Uma
parede, um muro unicamente decorado com esta chapa de ferro. Que se
guardará ou esconderá por detrás desta porta? Nem um postigo ou
uma janela com cortinas e até poderia ser a casa da Mariquinhas. Mas
a natureza quis dar um pouco de vida às pedras que lhe servem de
adorno. Pedras que, certamente já foram testemunhas de muita
negociata, segredos, coscuvilhices e, por isso, colocou sementes
entre elas de onde brotaram tufos de ervas que até poderão florir.
Para lá desta porta tudo é sossego e esquecimento.
Para lá desta porta tudo é sossego e esquecimento.
Benó
quinta-feira, julho 12, 2012
O DESAFIO DESTA SEMANA
O desafio Reticências de hoje, expresso mais abaixo pelas 12 fotografias e pelos 12 textos devidamente identificados, foi baseado na frase "Há muito que sabemos".
12. Zé-Viajante
Há muito que sabemos que nem tudo é feio, de mau gosto e triste (embora tudo indique que nos querem levar para lá).
Aqui, de uma antiga drogaria (as saudades, e a falta que ela faz) foi aproveitado todo o ambiente, mantido o nome, com um adicional, e ficou uma loja linda. Assim vale a pena acreditar que há gente que sabe conservar o que é belo.
Aqui, de uma antiga drogaria (as saudades, e a falta que ela faz) foi aproveitado todo o ambiente, mantido o nome, com um adicional, e ficou uma loja linda. Assim vale a pena acreditar que há gente que sabe conservar o que é belo.
Zé-Viajante
11. Zambujal
Há muito que sabemos… que
sabemos pouco.
Mas há muito que sabemos
tudo
por sabermos que tão pouco
sabemos.
(Ah!
Se eu não morresse nunca! E eternamente
buscasse
e conseguisse a perfeição das cousas…)
No dia em que alguém te
ama… o sol brilha
(não sei dizer melhor…).
No dia em que te ama quem tu
amas…
mesmo que chova e faça
frio, o sol aquece.
Em todos os dias que lutas
(e tens de lutar todos os
dias para humano seres)
aprendes que tens muito para
ensinar
e que tens muito mais para
aprender
A mim, há coisas que ainda
me espantam na vida;
eu, que estou no inverno da
minha vida,
esqueço-me de tardes de
tristeza e de amargura
mas nunca de uma manhã de
amor e de ternura.
Por outras vias do que ouço
e sei,
sei que, afinal, nunca
esqueço nada,
mas sei também que me
habituei
a viver com as lembranças e
com o que nunca esqueço.
Durante
anos e anos, eu dizia: “eu
sei!”
Só que, quanto mais vivia,
mais longe sabia estar de tudo saber.
Agora, que setenta e algumas
vezes badalou o meu relógio,
ainda vou à janela, e olho,
e procuro, e me interrogo.
Agora, eu sei há muito…
que sabemos pouco,
e sei que nunca saberemos
tudo!,
da vida, das flores, dos
amigos, dos amores,
(das coisas, dos seus sons,
das suas cores)
É tudo o que sabemos…
ah! mas isso eu sei!
(uma
misturada de
Dabadie,
Gabin, Cesário,
Brel
e
sei-lá-quem-mais lido e ouvido!)
Zambujal
10. Rocha/Desenhamento
Há muito que sabemos quanto o nosso olhar transporta para os milhões de nichos do cérebro as imagens do real, coisas que voltam por vezes à superfície da nossa consciência em metamorfoses que relevam porventura do subconsciente, figuras sobrepostas, manchas, restos de oceanos, cores inusitadas. Neste caso, ao rebuscar nas gavetas fotografias onde fora tentada a ilustração desse fenómeno, aqui estamos suspensos de vários registos de tempos, lugares ou coisas diferentes: há os restos ou ruína de um cargueiro encalhado na lama, projectando sombras sobre o ondular contrastante de um mar à flor da terra, enquanto o céu se substitui pela dobras redondas de um grande pano rosado, mortalha da lírica e dos finais encantatórios, como num fotograma de cinema, como na lágrima múltipla da saudade.
Rocha de Sousa
9. ~pi
Há
muito que sabemos que nos
passa ao lado o registo das horas vividas no livro das horas. Desde
sempre pressentimos a fundação essencial dos limites do corpo
contida nos abraços, que encerramos a medo, confundidos e trocados
por hesitações dum pasmo venenoso e fatal.
Revestimo-nos, por engano, com o forno do corredor das estrelas, desejámos na pele o vagaroso cetim violeta que forra as nebulosas que nunca adormecem, filhas do outro tempo dentro do tempo, colibris de luz, sonhámos eternos os vazios todos desse espaço aberto sem nenhum lugar e abrimos a boca como quem se salva.
Revestimo-nos, por engano, com o forno do corredor das estrelas, desejámos na pele o vagaroso cetim violeta que forra as nebulosas que nunca adormecem, filhas do outro tempo dentro do tempo, colibris de luz, sonhámos eternos os vazios todos desse espaço aberto sem nenhum lugar e abrimos a boca como quem se salva.
~pi
5. Justine
Há muito que sabemos que os gatos são deuses disfarçados, que por solidão decidiram tomar forma animal e aproximar-se dos homens, para usufruir da sua companhia. Sabemos até que eles conseguem, como deuses que são, ler os nossos pensamentos e falar a nossa língua. O nosso pequeno deus caseiro usa com muita frequência a expressão daqui não saio daqui ninguém me tira. E nós aceitamos!
Justine
3. Bettips
Há muito que sabemos que "A las ciudades se las conoce como a las personas, al andar" (Robert Musil, escritor e filósofo austríaco, 1880-1942, frase encontrada num folheto turístico, em Sevilha).
Mas sempre nos parece conhecer melhor, pela memória, os lugares quando os deixamos, as pessoas quando nos deixam.
Mas sempre nos parece conhecer melhor, pela memória, os lugares quando os deixamos, as pessoas quando nos deixam.
Bettips
2. Benó

Há muito que sabemos que os rios correm para o mar que se abraçam e se envolvem, misturam-se tornando salgado o que era doce.
Tal como dois amantes após zangas e discussões em que tudo é escuridão nos gritos e nas lágrimas. Após essa corrida louca de águas desiguais, os desejos misturam-se e há beijos com sabor a arroz doce e mel.
Há muito que sabemos que os rios correm para o mar mas nem todos chegam a saborear o salgado da sua água,uns secam no percurso e outros desviam-se para lagos de águas paradas.
Há muito que sabemos tanta coisa que fica por dizer.
Tal como dois amantes após zangas e discussões em que tudo é escuridão nos gritos e nas lágrimas. Após essa corrida louca de águas desiguais, os desejos misturam-se e há beijos com sabor a arroz doce e mel.
Há muito que sabemos que os rios correm para o mar mas nem todos chegam a saborear o salgado da sua água,uns secam no percurso e outros desviam-se para lagos de águas paradas.
Há muito que sabemos tanta coisa que fica por dizer.
Benó










