>

quinta-feira, outubro 25, 2012

7. M.

Uma espécie de osteoporose no corpo da História. À semelhança dos nossos corpos de gente anquilosada descrente dos desempenhos de articulações e rendilhados ocultos dentro desta enorme complexidade que nos habita. Desconfortos. Parafusos e barras de titânio a segurarem-nos, a manterem-nos de pé, recompondo as nossas vidas, cicatrizes assinalando as nossas histórias muito particulares. Valem-nos os ortopedistas. E os arqueólogos. E os antropólogos. E os sociólogos. E os historiadores. E os cientistas. Todos eles ávidos de entendimento do universo, à procura do que nos explica e explica a vida nas suas semelhanças e diferenças ao longo dos séculos. E os artesãos. Sem pressas, o perfeccionismo guiando o ritmo de cada gesto, a imaginação em permanente viagem entre o real e o simbólico, entre o todo e o detalhe que as suas mãos são capazes de imprimir nas pedras de todos os tempos, talvez eles sejam... Sim, talvez eles sejam presenças especiais onde encontramos conforto perante a dolorosa consciência da fragilidade do mundo terreno. Porque, ao deixarem tantas vezes a sua marca de criatividade sublime na arte que fazem, exprimem o desejo de Beleza imensa sentido pelo ser humano e assim a imortalizam. Apesar das ruínas e por causa delas.

M

5 Comments:

Blogger Justine said...

Homem e criação artística do homem - tudo ligado pelas mesmas necessidades e pelas mesmas dores...e pelo mesmo desejo de eternidade!

26/10/12  
Blogger Rocha de Sousa said...

A primeira frase diz tudo e é
testemunho da arte, do tempo e
do sentido da história. Belíssimo
texto.

26/10/12  
Blogger mena maya said...

Imaginei o teu texto um novelo que fui desenrolando palavra por palavra para melhor o apreciar.

PS.A mim tem-me valido o osteopata:-)

26/10/12  
Blogger bettips said...

Fizeste-me lembrar, com essa dos artesãos, o "Memorial do Convento". É sublime pensar neles, no sofrimento, no trabalho, na arte, na paciência, na escravatura. E na dádiva de Beleza que todos nos deixaram.

28/10/12  
Anonymous Zambujal said...

Belo e lúcido (ou belo por lúcido?) texto.

As colunas e as suas próteses...

31/10/12  

Enviar um comentário

<< Home