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quinta-feira, abril 16, 2015

5. Licínia

O SUICÍDIO DA CADEIRA
Há anos que ninguém lhe encontra préstimo. Nem um leve roçar de corpo, no assento, nem um braço a rodear-lhe as costas, nada. Passam sem a ver. Descem a escada, apressados, como se vivessem o último dia. Hoje já ninguém se senta, ninguém pára, ninguém olha o céu, ninguém conversa, ninguém descansa. Dantes, ao luar, no seu colo pousavam, e ela sentia-lhes as falas, os suspiros, até, quando o silêncio se fazia, o bater dos corações. Está sozinha a cadeira. Sozinha e invisível. Pela primeira vez, sem ajuda, moveu as pernas, inclinou o dorso, rangeu os ossos e atirou-se, no vazio. Um degrau a acolheu, caída sobre um lado. Ali ficou. Hoje, muitos nela reparam e dizem: olha uma cadeira aqui deitada. Mas ninguém a levanta. Ao menos olham-na.
Licínia