quinta-feira, maio 28, 2020
Proposta
de Licínia
“Uma
imagem vale mais que mil palavras.”, conceito atribuído a
Confúcio, faz parte do saber popular e continua a ser abundantemente
citado. Neste tempo de vedetização da imagem, lembrei-me de o
trazer para aqui, a dar o mote para o calendário do mês de Junho.
Assim, passo aos tópicos de cada semana, que farão o favor de
desenvolver e ilustrar com fotografia.
Boa
inspiração para o desafio que a M. nos proporciona.
Dia
4 -
Quando
a paisagem entra na foto.
Dia
11 – Retrato de família.
Dia
18 – Imagens em movimento.
Dia
25 - O
real-virtual.
O DESAFIO DE HOJE
Proposta
de Justine
Provavelmente
Alegria
(A
vida não está para graças! O peso dos dias dobra-nos, sendo
necessário ir inventando forças sabe-se lá onde, cada dia, todos
os dias! Pensei então: e se passássemos um mês inteirinho a
inventar alegrias? Não seria demais, pois não? E bem poupadinhas,
até podia ser que durassem até ao fim do ano. Vamos então todos,
durante Maio, à descoberta de alguma alegria!)
Gostaria
que os vossos textos fossem acompanhados de fotografia
Dia
7 - As alegrias do meu amanhecer
Dia
14
-
Se
eu fosse ainda criança
Dia
21 - Os meus antónimos de alegria
Dia
28
- A
Arte, fonte de alegria
10. Mónica

A
arte, fonte de alegria
Sem dúvida a arte é fonte de alegria e é também uma forma de expressão da alegria. A forma de arte que mais gosto, que considero suprema, chega-me por todos os canais de comunicação: é auditivo, é visual, é cinestésico, é Ballet. Adoro. Se posso vou uma ou duas vezes por ano. Ballet dançado pela minha filha Catarina, com 6 anos, no último ano do infantário, encomendada pela professora em duas escolas, é muita alegria com muita emoção, é a minha mãe sentada na primeira fila do teatro São Luiz lavada em lágrimas, como ela dizia, coitadinha tão pequena, tão precoce, parece uma macaca amestrada, a minha mãe achava mal atividades artísticas em crianças, mas neste caso era a neta a divertir-se, sem pressão nem objetivos comerciais, e a miúda portou-se mesmo bem, sem esforço, muito séria, muito orgulhosa, muito certinha, a sentir a música, ali no palco embrenhada no seu mundo, como lhe era tão típico.
Mónica
6. Licínia
A
Arte, superior expressão das pulsões humanas, quantas vezes
permanece para fruição das gerações vindouras. Quem não sente um
profundo júbilo ao contemplar as proporções ideais de uma estátua
grega ou a frescura quase palpável dos nenúfares de Monet ou a
ousadia de um Gugenheim ou um retrato de Pomar, para só citar alguns
exemplos que de súbito me ocorrem? A Arte, fonte de alegria, foi o
que me sugeriu a apropriação por um casal de cegonhas do capitel
belíssimo de uma coluna coríntia.
Licínia
5. Justine

Tanto
pode ser o júbilo da Ode
à Alegria
de Beethoven na sua 9ª; ou podem ser os tons vivos de Le
Bonheur de Vivre
e o movimento de La
Dance
de Matisse; ou ainda A
Rosa Púrpura do Cairo
ou Meia-Noite
em Paris
de Woody Allen, de onde se sai com o coração quentinho
– todas estas obras nascidas da criatividade do Homem nos
transmitem alegria! Escolhi mais um exemplo: a literatura, neste caso
a poesia, pela mão ainda pouco treinada de Saramago:
Madrigal
Foi milagre? Ideia louca.
Mas
que mais posso dizer
Desta
profunda alegria
De
ver a alma aparecer
No
riso da tua boca?
Ainda se fosse a tua,
Bem
seria,
Mas
a minha que faz lá?
Parece
um caso da lua
(tais
coisas não são de cá)
Andar-me
a alma contigo:
Foi
milagre: bem o digo.
(fotografia do livro de onde retirei o título deste desafio: Provavelmente Alegria, José Saramago, Livros Horizonte. Poema citado: pág. 89)
4. Jawaa

A
Arte, fonte de alegria, desde logo enrolada nos livros bordados de
palavras, rendilhados delas na escrita, as cores misturadas nos
pincéis, o ritmo na dança na música, o movimento a forma. A Arte
em cada peça delineada pelas mãos do homem, da pedra ao metal às
tecnologias, a arte insuperável da natureza, a criação a evolução,
o delinear do belo em cada estação, em cada latitude.
Arte
é Vida.
Jawaa
3. Isabel
A
arte para mim é fonte de alegria porque gosto de coisas belas
(embora a beleza seja tão subjectiva...) e porque foi a arte
(pintura, literatura, bailado, teatro... ) que me fez sair da minha
concha de timidez excessiva e perceber que sou igual a toda a gente.
A arte ajudou-me a crescer, a perceber-me e a perceber os outros.
A arte pode salvar-nos!
A arte ajudou-me a crescer, a perceber-me e a perceber os outros.
A arte pode salvar-nos!
Isabel
quinta-feira, maio 21, 2020
AGENDA PARA MAIO DE 2020
Proposta
de Justine
Provavelmente
Alegria
(A
vida não está para graças! O peso dos dias dobra-nos, sendo
necessário ir inventando forças sabe-se lá onde, cada dia, todos
os dias! Pensei então: e se passássemos um mês inteirinho a
inventar alegrias? Não seria demais, pois não? E bem poupadinhas,
até podia ser que durassem até ao fim do ano. Vamos então todos,
durante Maio, à descoberta de alguma alegria!)
Gostaria
que os vossos textos fossem acompanhados de fotografia
Dia
28
- A
Arte, fonte de alegria
14. Zambujal
Os
meus antónimos de alegria…

um até
se chamava Antónimo,
e
calhou-nos na rifa;
o outro
era Francoamente
antónimo
de alegria (gritava viva
la muerte!);
o 3º,
meio recolhido, em 2º plano, ao
Cerejeira
para
colocar a cereja no cimo do abraço;
o 4º
antónimo (são 4 os elementos, não são?)
é o
vírus destes dias de hoje,
um
pandemónio!
Zambujal
(nascido
no
Ano
da morte de Ricardo Reis)
12. Rocha/Desenhamento
Passo
lateralmente a este «jardim» que se deixa atravessar por linhas de
água, lenta e quase limpa reflectindo a luz ambiente e a própria
vegetação reflectindo a luz própria da vegetação em redor.
Paro. Sinto que o meu espírito se apazigua, um pouco no modo de se
interrogar calmo e contemplativo. É uma alegria
mansa,
algo de dentro, nenhuma mecânica agitada. Fotografo e reinstalo a
imagem, estabilidade quase geométrica, cada resolução desse género
se pode ligar a um estado de espírito em alegria, de distensão
mansa e grata nos modos, mesmo quando se retrata personagens ou
desastres principais.
Tudo
parece poder agregar o mesmo critério numa espécie de
exemplaridade, embora a percepção do real tenha em conta alguma
desconfiança, a existência de dois detritos, papel branco e
amarotado em baixo, outro, mais secreto e negro, aparecendo no canto
superior do enquadramento da calçada, pois já velho e de ritmo
ondular mais leve que se fazia um século atrás. Tudo isto perturba-me
(deprime) de ansiedade, perplexo com uma boneca de trapos, rasgada e
suja, que aparece lá mais adiante, como se tudo ali tivesse
destruído um pequeno universo de brincar entre simulações e
perdas.
ROCHA
DE SOUSA
11. Mónica

Os
meus antónimos de alegria
O que serão os
meus antónimos de alegria? Parece-me que se podem resumir a um, para
simplificar e para não ter que pensar muito em muitas coisas
desagradáveis, assim fico-me pela mentira. A mentira foi um letreiro
de letras grandes e luminosas que me acompanhou durante os dois anos
que vivi em Benguela. Não sabia que isto existia. Senti-me a viver
rodeada de pessoas tão escorregadias como uma lâmina de água no
pavimento de uma estrada. Concentrei-me em ouvir e estar calada, em
caminhar atenta com o olhar no infinito, a ver e registar para mim, a
desconfiar dizendo que estava tudo bem. A mentira está nos
contrastes sociais, económicos, na luta de sobrevivência, na falta
de condições básicas de vida, não há torneira, não há
interruptor, há escola sem cadeiras, há janelas sem vidros e sem
redes mosquiteiras, há casas sem chão, há guardas que são
contratados à empresa do chefe da policia, há colegas que roubam
fuba e açúcar para dar de comer em casa, há homens que usam as
mulheres a seu bel-prazer porque é assim, há quem diga que tem um
amigo general para facilitar, há quem conduza sem carta e paga a
gasosa, há quem se queixe que o estado lhe ficou a dever milhões,
há quem peça a comissão do negócio, a lista não acaba. A mentira
estava em tudo e em todo o lado, era oficial, era o modo de vida,
estava na minha casa, no meu trabalho. A fotografia mostra as camadas
da vida em Luanda, eu estava num condomínio fechado (esqueçam a
noção turística de condomínio fechado) com guardas, gerador
próprio, piscina vazia, e da minha janela fotografei o que me
rodeava, até onde a máquina fotográfica alcança mostra as gruas
do progresso e da dita civilização. Da outra janela via um campo de
bananeiras com um riacho de águas paradas que servia para a lavagem
de carros, um trabalho vulgar feito com um balde de água e um pano,
e crianças brincarem. Tudo era mentira sob o ponto de vista dos meus
valores, do meu senso comum, para mim foi-se a alegria.
Mónica
9. Margarida
Um
antónimo de alegria?
Natural
e instintivamente me lembrei do Payaso António, caracterizado,
maquilhado e pintado. Um flautista incrível, tocando e alegrando as
gentes que passavam, as muitas gentes que passavam diariamente na
Praça da Independência, em Montevidéu, Uruguai, já lá vai o ano
de 2008.
Instalava-se
bem cedinho, pela manhã, acompanhado da sua malinha de cartão de
onde saíam os artefactos mais incríveis e coloridos que jamais vi.
O António tinha o dom de os metamorfosear.
Tive
o prazer, a honra e a felicidade de falar com ele, manhã a manhã,
todas as manhãs. Era triste mas alegrava. Vivia num vão de escadas,
mas sorria. Alimentava-se de um cabaz social, igual todos os dias.
Enchia balões cheios de nada. Conhecia e amava o fado português.
Enviei-lhe 1 triplo CD, quando cheguei, para 1 apartado sem rosto.
É
um antónimo de alegria que querem?
É
quando rimos, chorando.
Margarida
5. Justine

A amargura de saber uma criança maltratada; a consternação por haver homens que escravizam homens; o luto por um amigo que morreu; o desconsolo da solidão; o desgosto por ver a natureza assassinada; a indignação por haver gente que se aproveita da infelicidade de todos para seu único proveito; a tristeza por viver tempos em ruína!
Justine
2. Bettips
Os meus antónimos de alegria são muitos, nem sequer sou uma pessoa muito alegre. A pobreza, a injustiça, a desigualdade social, a hipocrisia, o lixo, o barulho, muita gente junta, a destruição da Natureza... algumas. Escolhi esta fotografia que engloba vários destes meus pesares: numa rua de uma grande e turística cidade, os traços de abandono de alguém que ali dorme.
Bettips
quinta-feira, maio 14, 2020
AGENDA PARA MAIO DE 2020
Proposta
de Justine
Gostaria
que os vossos textos fossem acompanhados de fotografia
Dia
21 - Os meus antónimos de alegria
14. Zambujal
Se
eu fosse ainda criança…
… mas somos todos
a criança que fomos(Provavelmente com alegria
todos os que não têm a barriga vazia)
Mas…
… meninos?, quantos o não foram?
Por isso lembro, e homenageio
Soeiro Pereira Gomes,
que escreveu um livro, há 80 anos,
para os filhos dos homens
que nunca foram meninos

Zambujal
12. Rocha/Desenhamento

Se eu fosse ainda criança, tanto como o meu filho aqui balbuciando os primeiros sons, apontaria o meu rosto às criaturas que se aproximassem de mim e dir-lhes-ia: sou filho de alguém e esta senhora está a cuidar do meu crescimento e dos que se aproximarem de mim na esperança do meu bom desenvolvimento, em todos os aspectos, do ver à razão apontando a esperança no homem de amanhã.
Rocha de Sousa
11. Mónica

Se eu fosse ainda criança, ainda!?, primeiro seria muito infeliz e a seguir trataria de me tornar adulta. Lembro-me tão bem que tive pressa de crescer, a minha avó paterna dizia que eu já tinha nascido velha, sempre de sobrolho franzido, para a minha mãe eu era uma refilona, pareces uma velha chata. Lembro-me de discutir com os meus pais as ordens “comem na cozinha” ou “vão dormir” ou “saiam da sala” porque há visitas ou porque os assuntos não eram para crianças ou “é assim porque eu é que mando”, o argumento xeque-mate. Não me calava, os meus pais ainda ensaiavam o argumento “os avós nunca me deram hipóteses de falar assim com eles”. Como se isso me interessasse. Nem os meus avós me interessavam, tratavam-nos como seres sem voto na matéria, pedir licença para falar, isso é que era bom. Quando era criança tinha muita liberdade, três ou quatro obrigações, uma família de gorilas como dizia o meu pai e a meu ver havia também muita injustiça com as crianças, muitos segredos, muitos tabus e mais tarde como rapariga outras tantas injustiças apesar da minha mãe ter iniciado a luta de emancipação feminina na família. Lembro-me tão bem de ter pressa para crescer para ser dona da minha vida, nunca mais ter que comer sopa, vestir-me à minha vontade, não ter que andar de cabelo rapado, não receber ordens estúpidas sem uma explicação, não levar tabefes do meu irmão mais velho, ter a minha casa com as minhas coisas sem explicar porquê que as guardava sem sofrer os raides de deitar para o lixo que a minha mãe de vez quando fazia, para que é que guardas tanta porcaria. Mal sabia eu que, adulta, haveria de copiar os comportamentos dos adultos e continuar a receber ordens estúpidas sem explicações, como se eu fosse um adulto sem cérebro. Pois é, ainda assim gosto muito de ser adulta, não abro mão das minhas conquistas, do meu estatuto de autonomia, da minha declaração de independência, não quero ser criança, nem ainda nem outra vez, peço desculpa mas não entro na brincadeira ahahahahah
Mónica
10. Mena M.

Se
eu fosse ainda criança, continuaria a olhar o mundo com a mesma
curiosidade que sempre me foi característica.
Se
eu fosse ainda criança, continuaria a amar o mar, que sempre me
fascinou.
Se
eu fosse ainda a criança pré adolescente, teria gostado de saber
que muitas das crianças de que tomei conta, nunca iriam esquecer o
impacto que nelas tive e que ainda hoje me lembram com todo o
carinho.
Se
eu fosse ainda criança, gostava que os meus pais tivessem tido tempo
e disponibilidade para nos conhecerem melhor, um por um, de mais
perto, porque todos éramos diferentes, cada um com as suas maneiras
de ser e sentir, com os seus gostos, as suas inclinações e
preferências. Reconheço que com 14 filhos e um pai, "pássaro"
de profissão, é quase impossível
Se
eu fosse ainda criança, teria ficado feliz ao saber que nunca deixei
de viver no peito da adulta que hoje sou.
Mena
8. M.

Se
eu fosse ainda criança voltaria a gostar de receber este postal e de
sentir o mesmo prazer que tenho sempre que lhe pego e leio as
palavras escritas pela minha Mãe. Nada mudaria em mim para lá de um
pequeno ajuste no meu tamanho de adulta.
1952,
a segunda guerra mundial ainda presente na lembrança e na vida das
pessoas. Em viagem de automóvel através dos vários países da
Europa em reconstrução, os meus Pais enviavam-me postais engraçados
com palavras carinhosas. Era uma alegria quando chegavam à caixa do
correio.
2020.
O mundo em sofrimento, a Europa em pesadelo. Uma vez mais os dias e
os meses desabando e reconstruindo-se. O postal desdobrando-se em
harmónio no todo que é. Eu reconhecendo-me nele.
M
6. Licínia
Se eu fosse ainda criança e não tivesse já passado muitas décadas a crescer e a diminuir, que assim se faz o nosso breve ciclo entre o nascer e o morrer, se assim não tivesse sido e eu permanecesse naquele estado a que se costuma chamar “dos anos felizes e despreocupados”, quem seria eu agora?
Só pelo absurdo se pode falar de um tempo irreal, mas pode-se fazer um esforço. Pode-se falar dos passeios pela mão do pai, do papel dos rebuçados que se pegava aos dedos, das festinhas na cabeça feitas pela mão sapuda do vizinho Nicolau, dos joelhos esfolados no saibro do caminho, do sumo das ameixas vermelhas a escorrer pelo bibe, de brincar às casinhas com a amiga Milu, de ouvir cem vezes a história do gato das botas, das primeiras letras aprendidas, b a bá, e a magia a acontecer. Foi tudo isto a infância e tudo o mais que se apagou da memória, mas que persiste num lugar escondido e nos faz gostar disto ou daquilo, reagir desta ou daquela maneira, sem explicação, apenas porque sim, porque afinal a criança ainda vive connosco e viverá e nos falará de Alegria, provavelmente.
Só pelo absurdo se pode falar de um tempo irreal, mas pode-se fazer um esforço. Pode-se falar dos passeios pela mão do pai, do papel dos rebuçados que se pegava aos dedos, das festinhas na cabeça feitas pela mão sapuda do vizinho Nicolau, dos joelhos esfolados no saibro do caminho, do sumo das ameixas vermelhas a escorrer pelo bibe, de brincar às casinhas com a amiga Milu, de ouvir cem vezes a história do gato das botas, das primeiras letras aprendidas, b a bá, e a magia a acontecer. Foi tudo isto a infância e tudo o mais que se apagou da memória, mas que persiste num lugar escondido e nos faz gostar disto ou daquilo, reagir desta ou daquela maneira, sem explicação, apenas porque sim, porque afinal a criança ainda vive connosco e viverá e nos falará de Alegria, provavelmente.
Licínia
5. Justine

Se eu fosse ainda criança, agarrava na toalha de praia bem aberta por cima da cabeça e desatava a correr pelo areal, transformada numa ave à procura do vento propício para levantar voo.
Mas como os ossos já não me permitem tal feito, caminho devagar pelo mesmo areal agora um pouco mais soturno, serenamente pensando que talvez a alegria seja igual…
Mas como os ossos já não me permitem tal feito, caminho devagar pelo mesmo areal agora um pouco mais soturno, serenamente pensando que talvez a alegria seja igual…
Justine
4. Jawaa

Se eu fosse ainda criança teria de alargar o tempo, o tempo de encanto de cada caminhada na vala por entre os peixes escorregadios, por cada sorver de água fresca e ferrosa da nascente, por cada dentada nos favos de mel fresco, por cada dentada nas goiabas verdes, trepada na árvore que crescia junto ao tanque onde minha mãe lavava roupa na água corrente.
Se eu fosse ainda criança teria a mão forte de meu pai a apertar a minha mão pequenina no escuro da horta, afastando todos os medos do mundo.
Jawaa
3. Isabel

Se
eu fosse ainda criança...
Brincava
horas seguidas no quintal da minha casa ou às vezes na rua, no
Verão.
Brincava
com as bonecas e às casinhas, com a Maria José e a Tina. Tínhamos
as nossas casinhas no quintal, caiadas de branco, com prateleiras
para pôr a loiça. E as mobílias das bonecas, que o meu irmão mais
velho nos fazia com as caixas de madeira onde vinha a marmelada.
Brincava
aos cowboys com os miúdos da vizinhança e a minha irmã mais nova.
Ou
víamos televisão à noite, na primeira televisão que apareceu lá
na rua.
Jogávamos
ao elástico com o Agostinho (que nunca mais vi...).
Nas
férias grandes ia para a aldeia da minha mãe e eram os primos que
vinham de França, os banhos na ribeira, os bolinhos feitos no forno
de lenha...
Era
um tempo feliz!
Dávamos
valor às coisas.
E
nesse tempo ainda não me faltava ninguém!
Isabel
quarta-feira, maio 13, 2020
quarta-feira, maio 06, 2020
AGENDA PARA MAIO DE 2020
Proposta
de Justine
Provavelmente
Alegria
Gostaria
que os vossos textos fossem acompanhados de fotografia
Dia
14
-
Se
eu fosse ainda criança
O DESAFIO DE HOJE
Proposta
de Justine
Provavelmente
Alegria
(A
vida não está para graças! O peso dos dias dobra-nos, sendo
necessário ir inventando forças sabe-se lá onde, cada dia, todos
os dias! Pensei então: e se passássemos um mês inteirinho a
inventar alegrias? Não seria demais, pois não? E bem poupadinhas,
até podia ser que durassem até ao fim do ano. Vamos então todos,
durante Maio, à descoberta de alguma alegria!)
Gostaria
que os vossos textos fossem acompanhados de fotografia
Dia 7 - As alegrias do meu amanhecer
14. Zambujal

Crónica
de uma manhã de Maio… diferente
Saltei
da cama ao sol desta canção Maio,
maduro Maio,
banda sonora para ver doirar as nêsperas, com acompanhamento do coro
dos pintassilgos e outra passarada canora. Dou gracias
à la vida.
Tudo
acorda em ode
à alegria,
numa maravilhosa 9ª sinfonia.
Mas.
Mas
este é o Maio de 2020, o Maio do nosso acantonamento.
Apesar
de tudo, alegre o nosso canto, onde maduram nêsperas e cantam
pássaros.
Solidários
com os que vivem em confinados cantos recantos, e mais ainda com os
que nem isso têm.
Zambujal
12. Rocha/Desenhamento
Nascer
corresponde a um dos fenómenos mais transcendentes da nossa vida na
Terra. Nascer pode corresponder a situações mais profundas no
sentido do ser, crescer e usar a razão. O contexto em que se abre a
vida pode ser paradisíaco ou deplorável, afundado em lama ou
marcando os seres por intempéries e ruínas. Tudo isso marca o ser
humano, Mas a nossa alma, vinculada à pessoa e aos valores da
concepção da vida, ultrapassa sempre as contingências da
realidade, nem sempre explicáveis. Ser. Nós no limiar do ser,
alguns anos depois de nascer e no meio de um abismo tremente, é, em
si, um modo e abarcar os sentidos das coisas. O ser humano é, em si
e desde cedo, um espírito resiliente e criador.
ROCHA DE SOUSA
11. Mónica

As
alegrias do meu amanhecer
Gosto do amanhecer,
é de manhã que começa o dia, digo eu, gosto de acordar de manhã
cedo, gosto da troca de “bom dia”, de um bom pequeno-almoço, de
madrugar para começar uma viagem de farnel, gostava de acordar cedo
para estudar, gosto de chegar cedo ao trabalho, telefonar aos
clientes logo à primeira hora, organizar e planear o dia, a manhã é
a parte do dia que mais gosto, cada manhã que começa é um livro em
branco de possibilidades, e se possível tomar o segundo
pequeno-almoço. Acordar e ver o sol a nascer é um privilégio, é
contagiante a beleza do amanhecer. Tirei esta fotografia há alguns
anos, o Nascente do Nordeste transmontano, o meu norte intuitivo, não
sei porquê, se não visse o sol a nascer diria que ali era o Norte,
chegava-me à varanda da cozinha, o meu lugar favorito, o meu
refugio, a visão ampla do meu mundo que acabava ali,
inconscientemente levantava a perna direita, pousava-a no murete,
apoiava o cotovelo no joelho, o queixo na palma da mão e ficava
parada, a ver o sol a aparecer vindo por trás dos montes, os gatos
aproximavam-se em equilíbrio no murete a fazerem gincana nos varões
da varanda, fazia-lhes uma festa sem tirar os olhos do sol, a terra a
girar para baixo (ou para a esquerda), lentamente, assim começava
mais um dia. Alegria, bom dia!
Mónica
















