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terça-feira, junho 20, 2006

Estarei ausente de 21 a 29 de Junho. Deixo a janela entreaberta, não vá alguém passar e gostar de espreitar...

quinta-feira, junho 15, 2006

A pedido da Teresa, dois excertos do livro "O Último Encontro", de Catherine Clément

É sempre difícil escolher textos representativos de um livro. Escolhi estes dois, embora sabendo que (porque apenas através deles), a ideia com que ficarão do todo é prejudicada. Neste caso em particular, os capítulos da história entrelaçam-se de forma muito particular. Na minha opinião, é um livro espantoso que vale a pena ler.
M


«Dois homens tinham apoiado Hannah durante a controvérsia do caso Eichmann. O amigo e o marido, Karl e Heinrich. Dois companheiros encarregados do mesmo planeta, preocupados com a comunidade e com a verdade. Karl morrera primeiro e depois Heinrich. Faltavam Martin e Hannah, os filósofos.


− Se a filosofia serve para alguma coisa, Elfride? − disse ela. − Tem piada que faça essa pergunta. O que é que Martin responderia?
− Que a filosofia não tem utilidade política − disse logo Elfride. − A filosofia não serve.
− Nesse caso, quem é que vai compreender Eichmann? Os tribunais não pensam, aplicam protocolos. A única coisa que os preocupa é saber se a pessoa é culpada ou não. Mas o filósofo nunca está satisfeito! Eu, por exemplo, tive de admitir a banalidade do mal. Não mo perdoaram…
− Não? − disse Elfride. − Não percebo porquê.
− É muito mais fácil acreditar em conspirações diabólicas! Mas não! O mal é bastante modesto.
− De qualquer maneira, sem os conselhos judaicos os acólitos do Führer nunca teriam conseguido alcançar os objectivos estabelecidos − murmurou Elfride. − É horrível.
− Os acólitos do Führer? Então e ele, esqueceu-o? A Elfride leu o Mein Kampf antes de se inscrever no partido!»

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« Passaram a encontrar-se entre Marburgo e Berlim, numa cidade que ficava no percurso do comboio. O prazer da espera conservava o seu gosto proibido. Marcavam encontro nas estações e depois ele levava-a para quartos de hotel. O corpo a corpo ainda era vivo, mas sobrava o resto do tempo. Tão longo, tão estúpido. Martin vestia-se, ia-se embora. Quando nos voltamos a ver? Proximamente. O que é o próximo? O ser, na sua emergência. Mas quando?, diz. Ele não responde. Agora não, nem tão cedo.
− Sabes bem que não sou dono do meu tempo − dizia ele.
Martin mantinha Hannah em sentinela. E ela submetia-se. A espera exacerbava o amor até à dor, como a ferida de uma criança cuja crosta ela arranca para fazer deitar sangue, por gosto. Muito sangue tinha corrido por debaixo das pontes que ligavam as estações dos comboios, e muito prazer também. A crosta infectava só um pouco, mas sem septicemia.
Até ao dia do encontro gorado na plataforma da estação de Heidelberga. Gangrena fulminante, amputação do amor. A ferida cicatrizou, formando uma crosta espessa que Hannah deixou sossegada. Operação bem sucedida.
Hannah já não arranhava a ferida que julgava curada. Um dia, depois da separação, Martin fora a Berlim visitar o jovem marido de Hannah. E a ferida voltou a abrir.»

O Último Encontro, Catherine Clément. Edições Asa.