A lua, para meu espanto, não estava lá. Procurei-a por entre as nuvens, olhei o céu, tentei mais tarde (podia ter-se atrasado) e, quando a noite já ia alto, desisti...e acendi a luz.
A lua gira em torno dos nossos espaços, marcada pelas forças gravitacionais no quadro das referências cósmicas, dentro da galáxia onde vogamos e existimos, espreitando cada vez mais longe, a desvendar milhares de outras galáxias, corpos estranhos, variações indizíveis na aparente semelhança de tudo, mais sistemas de estrelas e planetas - planetas que o homem tem vindo a descobrir às centenas, alguns dos quais apresentando condições concretas para a formação de vida, perto do modelo que conhecemos ou ditadas por esplendorosas relações dos materiais lá existentes.
A lua estava lá, uma enorme bola luminosa onde descanso o meu olhar de viajante deste mundo em busca do infinito.
A lu, a lu!, exclamava o menino, e todo ele ria, era ainda a idade das palavras imperfeitas à procura de si mesmas. Também ele tinha descoberto a doce lua.
A lua é esquiva para quem vive na cidade grande. Por momentos aparece entre dois prédios mas logo foge e se esconde. Pobres dos românticos que correm atrás dela e que apenas dispõem duma simples máquina para a captar antes que desapareça por detrás dum qualquer muro.
A Lua chamou-me e eu fui, rua acima, ao seu encontro. Poisou sobre o eucalipto e dele fez medusa. Paisagens irreais, subaquáticas, geometrias impossíveis, longe além do longe. Acordei com um brilho estranho no rosto, como as crianças que riem à Lua nos seus berços de noite.
A lua aproximou-se devagar até quase tocar o telhado, e ali ficou uns momentos, a sorrir-me. Era a única luz no jardim, com excepção dos pirilampos. O tempo tinha parado. E eu só acordei do encantamento quando, matreira, uma nuvem veio desfazer a magia.
A Lua ... é a mesma de há 50 anos, numa janelinha de rapariga, virada aos pinheiros e aos campos da beira mar. Vivi anos por lá. Dessas noites infantis e de olhos muito abertos, me ficou o gosto dela. Da arte das fugas que ninguém sabe. Ou saberá mais a lua do que o sol.
Estamos as duas muito mais crescidas mas teimamos em manter o anonimato e a ilusão. Aparecemos com muitas caras. Ficamos ambas felizes nos invernos em que as promessas nos borbotos das árvores se vêem. Mesmo à luz da lua.
A lua, de prata vestida, apareceu numa tarde outonal, fria e cinzenta, dançando. Captei-a no exato momento em que executava uma pirueta e pontas sobre o ramo da árvore do meu jardim. Foi rápida a sua atuação e tenho a certeza que o seu desejo seria mostrar-me um "pas de deux" mas estava sozinha sem o seu rei e senhor que é a luz da sua existência, naquela tarde fria e cinzenta.