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quinta-feira, dezembro 17, 2015

7. M.

Acho graça ao sentido prático destas criaturas. Reconhecendo-se de passo lento, transportam com eles a casa, não vá o trajecto ser ainda mais demorado do que o previsto e precisarem de descansar algures. Bem gostava eu de os observar na tarefa de se recolherem em momentos desses mas imagino que gastarão algum tempo a encaixar-se naquela assoalhada em espiral. Espirais só conheço bem as dos meus ouvidos que, de forma aleatória, interferem na normalidade da minha vida ao ponto de quase me darem vontade de me agarrar ao chão em busca de terra firme e rastejar à maneira dos ditos caracóis. Não que queira imitá-los, longe disso, a ideia é tentar minimizar as consequências das terríveis vertigens que, sei lá por que desacerto na minha configuração auditiva, põem o mundo a rodopiar e eu dentro dele em desequilíbrio acelerado. Aliás, um desequilíbrio assaz desagradável e nauseado. Mas pelos vistos a tal espiral da assoalhada não apoquenta os caracóis, nem sequer na fragilidade calcária das suas conchas deixa mossas, presumindo eu que proporcionará bom aconchego ao seu corpo mole. Enfim, cada um tem a vida possível. Há quem embirre com eles pelas mais diversas razões. Conheço algumas dessas embirrações e imagino mais duas ou três quando oiço alguém usar com desdém a expressão “Não vale um caracol” a propósito de qualquer coisa de somenos importância. Uma opinião, claro, porque “cada cabeça sua sentença”, para outras pessoas talvez possa valer muitos caracóis. Singularidades do ser humano.

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