quarta-feira, dezembro 24, 2025

5. M


 

Há alguns anos, passeando por ali após um almoço de Natal, fotografei este pedaço da cidade. Olho-o de novo agora. Gosto da nitidez da imagem, do despojamento, dos ângulos, do bulício e calmaria adivinhados. No recinto da Capela de Santo Amaro, neste portal antigo um pouco degradado, visualizo as habituais figuras da família nuclear representada no Presépio: José, Maria e Jesus, acompanhados pela vaca e pelo burro. Por cima, uma estrela com rasto desenhado no céu aponta para este lugar que os acolhe. Para lá do portal-abrigo, entre o aglomerado de casas, imagino famílias que não conheço a celebrar a festa do encontro natalício com presentes e alegria. Os Outros, os desprotegidos e solitários, também lá estarão nos becos e ruas enfeitadas com delírios consumistas. Tantos são os mundos das cidades e das pessoas.

M

https://pt.wikipedia.org/wiki/Capela_de_Santo_Amaro_(Alc%C3%A2ntara)

O anterior link e o nome da capela estavam incorrectos. (Obrigada, Mónica, pela chamada de atenção) 

8 comentários:

Mónica disse...

Fotografia a cinzento e vermelho, antigo e moderno, natural e tecnológico, adoro estas camadas. Desculpa mas a fotografia sobrepõe-se à minha preguiça de ler o texto, hei-de cá voltar e ler

bettips disse...

Um reflexão sobre os portais que servem aos mais humildes.

Anónimo disse...

Gostei muito da fotografia. Tenho alguma dificuldade em relacionar com o texro. Tenho que o reler.
Teresa

Luisa S silva disse...

Os constrates entre pessoas sempre brutais

M. disse...

Teresa:
Aquele portal semi destruído da entrada para o recinto da Igreja da Memória lembra-me o formato e enquadramento com que os presépios são apresentados como enfeites nas ruas, nas casas de cada pessoa, dentro das igrejas, etc. Aqui está "vazio", "oco" por isso imaginei dentro dele as figuras principais do presépio. Por outro lado, "atravesso-o" e vejo casas e dentro delas imagino o s seus moradores em festa natalícia e fora, desabrigados nas ruas e becos, os Outros, os menos afortunados. Mais ao longe, as gruas paradas representam a vida de trabalho numa sociedade que não se deseja desligada do bem estar enquanto motor de conservação e modernidade. E por fim, o contraste entre a nitidez despoluída da imagem e a vida que se passa nas cidades no seu dia a dia atarefado e barulhento e a tranquilidade temporária em dia especial. Contrastes imensos.

Mónica disse...

O link da Wikipédia coloca a igreja da memória na basílica da estrela, fui procurar e não consigo por-me no ponto de vista da tua fotografia. Não estou familiarizada com a igreja e o local. Sim o portal podia albergar o presépio mas a fotografia puxa para a realidade do dia da fotografia: os barcos e as gruas, a azáfama das transações que comandam a vida até no dia de Natal

M. disse...

Mónica .
Obrigada por teres reparado no link errado. Enganei-me. Quanto ao teu comentário sobre a fotografia, a minha interpretação não é só essa, é o contraste entre as várias vidas e realidades.

mena maya disse...

Täo rica esta troca de olhares sobre a tua fotografia e todos os lugares para onde nos leva a imaginação. Eu ao loge vejo girafas, qque não fazem parte do presépio a que nos hanituaram.