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quinta-feira, maio 21, 2015

6. M.

Eu andava pelo bairro lembrando lugares, reconhecendo-os, descobrindo diferenças trazidas pelos anos de ausência, pisando devagar as pedras do caminho que me levava ao liceu onde fui aluna durante cinco anos. A certa altura, ao olhar para cima, reparei no enquadramento da janela entreaberta: o rosa vivo, a parede fechada do outro lado, os ramos secos das árvores, o céu azul, os telhados escondendo vidas, o pedacinho da plataforma da ponte. Parei, o olhar preso lá longe, à espera que algum carro passasse e eu conseguisse captá-lo através da minha máquina fotográfica, apesar da pressa com que se deslocavam, como se, uns atrás dos outros, fugissem de mim. Aprisionei a camioneta, tão pequenina na distância. E pensei: interessante como a distância pode fazer parte do que nos está mais próximo.
Entre a brevidade dos momentos e a permanência me construo e reconstruo. Eu, a adulta de hoje, e a outra eu, a da infância e da juventude. E no entanto sempre eu, fiel companhia que me sustém no mapa da minha existência.
M