Depois...
… depois dos 96, o que nos resta? Pouco. A não ser ler, ler e ler. Devorar livros, basicamente. Ler o jornal, isso é sagrado, diariamente. Abominar este neofascismo latente, visível por todo o lado. E aconselhar livros ou autores a outros, do género: “… não gostei deste, aquele é muito bom, faz-me rir, este autor escreve muito bem, é aquele judeu homossexual, sabes, com ele vieram-me as lágrimas aos olhos…”, entre muitas outras expressões engraçadas. A audição é fraca, a visão embaciada, a mobilidade dorida, os derrames surgem do nada, o apetite mantém-se voraz e a pele queimada de todo o sol da vida. Só os intestinos já não são o que eram e a perna incha. O sono, esse, é sempre bom, o que não impede que não adormeça em cima das palavras cruzadas. Valha-nos ler, portanto, no fresquinho desta sombra, a que habita os seus dias ainda vivos, das 6 da manhã às 9 da noite.
Margarida
1 comentário:
Grande inspiração de texto e imagem. Aceito sugestões de leitura
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