quinta-feira, maio 21, 2015

AGENDA PARA MAIO DE 2015

Dia 28 - Fotografando as palavras de outros sobre este excerto de um livro de que gostei muito, embora de início me tenha sido estranho: 
«Nani, Nani. A boneca, impassível, continuava a vomitar. Despejaste para o lavatório todo o teu limo, valente. Abri-lhe os lábios, com um dedo alarguei o orifício da boca, deixei-lhe correr para dentro água da torneira e depois agitei-a com força, para lhe lavar muito bem a cavidade sombria do tronco, do ventre, e fazer sair por fim o bebé que Elena lhe introduzira lá dentro. Brincadeiras. Dizer tudo às meninas, desde a infância: elas depois pensarão em inventar um mundo aceitável. Eu própria agora estava a brincar, uma mãe não é mais do que uma filha a brincar, ajudava-me a reflectir.»
Crónicas do Mal de Amor (A Filha Obscura), Elena Ferrante, Relógio D'Água Editores, Maio de 2014

O DESAFIO DE HOJE



Dia 21 - Com as palavras dentro do olhar sobre fotografia da M.

10. Zambujal

Olho a foto e que vejo (que vêem os meus olhos, e que retenho quando os volto para o teclado)? Uns ramitos desnudados num primeiro plano de uma mansarda, talvez parisiense…, de onde parece ter saído um camião TIR que atravessa um viaduto. E começo a efabular recordações vividas e nunca contadas. Aqui, pelo menos…
Um dia (ou… era uma vez) fazia uma das minhas viagens malucas Zambujal - Bruxelas (e volta), agarrado ao volante e a ouvir uma selecção de CDs. Chegara aos arredores de Paris e a entrada no “periphérique” exigia maior concentração, a todas as horas que todas são “de ponta”. Ao longe e ao alto vislumbro uma indicação a letras garrafais PARIS BRUXELAS; procuro, com as dificuldades sabidas a 100-à-hora, apanhar a faixa da direita, consigo… e, quando levanto os olhos, vejo que a indicação vem de um camião TIR em cima de um viaduto sobre o “periphérique”, engarrafado no trânsito. Ainda procuro corrigir, passar para uma faixa mais à esquerda mas não me deixam!
Fui engolido pelas entranhas de Paris. E foi um sarilho sair delas e recuperar o “periphérique” e a saída norte, para Bruxelas… sem ser de camião TIR.

As palavras que se soltaram de dentro do olhar, ao olhar a sugestiva foto!

Zambujal

9. Teresa Silva

Bonita fotografia. Um jogo de planos muito bem conseguido. Da janela mais alta da casa parece ver-se muito perto o carro que passa no viaduto.As árvores no primeiro plano, embora despidas, dão um certo alento a uma cidade que teve de modernizar-se. O automóvel tornou-se mais importante do que uma casa. É assim o "progresso".
Teresa Silva

8. Rocha/Desenhamento

Reparo no azul do céu, este é um recanto de Lisboa, até sinto as palavras dentro dos olhos. Fotografia de bom zelo no enquadramento, as arquitecturas e ramos de árvore em primeiro plano e em baixo, entre cortes dinâmicos, da bela casa em esquina à não muito longínqua passadeira ao alto, em betão, de acesso à Ponte sobre o Tejo, um telhado por baixo, um muro em aguda perspectiva à direita, as árvores sem folhas no proscénio. E o largo resto da composição, dentro dos olhos, é todo o azul do céu, inteiro como o dia.
Rocha de Sousa

7. Mena M.

Ao olhar esta foto pela primeira vez, tive a certeza de que tinha nevado. O contraste do branco tão puro com o azul do céu deu-me essa ilusão. Serão saudades de um inverno branquinho que não tivemos este ano?
Mena

6. M.

Eu andava pelo bairro lembrando lugares, reconhecendo-os, descobrindo diferenças trazidas pelos anos de ausência, pisando devagar as pedras do caminho que me levava ao liceu onde fui aluna durante cinco anos. A certa altura, ao olhar para cima, reparei no enquadramento da janela entreaberta: o rosa vivo, a parede fechada do outro lado, os ramos secos das árvores, o céu azul, os telhados escondendo vidas, o pedacinho da plataforma da ponte. Parei, o olhar preso lá longe, à espera que algum carro passasse e eu conseguisse captá-lo através da minha máquina fotográfica, apesar da pressa com que se deslocavam, como se, uns atrás dos outros, fugissem de mim. Aprisionei a camioneta, tão pequenina na distância. E pensei: interessante como a distância pode fazer parte do que nos está mais próximo.
Entre a brevidade dos momentos e a permanência me construo e reconstruo. Eu, a adulta de hoje, e a outra eu, a da infância e da juventude. E no entanto sempre eu, fiel companhia que me sustém no mapa da minha existência.
M

5. Luisa

Quando comprei esta casa não imaginava que, um dia, iria acordar com uma camioneta a entrar-me pela janela.
Luisa

4. Licínia

Outrora houve por ali casas e nas casas houve gente que chegava à janela e olhava para o céu onde os únicos passantes eram aves, talvez os pardais da cidade, as andorinhas primaveris, as gaivotas que procuram terra quando a borrasca se avizinha. Muitas dessas casas ainda ali estão, com outra gente nelas, gente que para ver o céu precisa de esticar mais o pescoço, de dirigir os olhos mais para cima, não vão eles esbarrar na estrada que depois apareceu, suspensa em altas pernas, longa, longa, caminhando sobre a terra, sobre o rio, sobre a terra de novo. Os que nela passam, muito alto, muito alto, olham para baixo, para os telhados das casas, para as pessoas pequeninas, para os barcos no rio. Olham, como olham os pardais, as andorinhas, as gaivotas e outros, como eles, passageiros do céu.
Licínia

3. Justine

Um palacete de outros tempos, majestoso e elegante. Um viaduto moderno e desengraçado, por onde rola um camião a cortar o céu. Uma parede cega e um telhado com remendos, disfarçados por uma cortina de árvores no inverno. A beleza e a fealdade numa paisagem urbana…
Justine

2. Bettips

Tantas as pontes, tantas as travessias das nossas vidas. Que, mesmo olhadas de longe, sabemos que existem e as atravessaremos. Com estrépito, com doçura, com lágrimas ou risos, elas estão ali, no olhar ou nos anos, para nos levar a outro lado, em viagem ou em separação.
Bettips

1. Agrades

Olho a foto, bem bonita e enigmática, e vejo um céu imenso e azul, que me quer fazer lembrar o verão; no entanto as ramadas das árvores despidas são indício que a primavera está longe...
Quanto às construções, há-as de materiais e feitura singela a contrastar com outra de elaborada arquitetura e gosto e a ponte, altaneira e segura, lá no alto, que mostra um único veículo a atravessá-la. Aí há gente, que não se vê mas adivinha-se. E as casas, serão habitadas?
Tanta interrogação... 
Agrades

quinta-feira, maio 14, 2015

quarta-feira, maio 13, 2015

10. Zambujal



                    Restara apenas 
               aquele pedaço de broa, 
                 e o amigo estava lá. 
Para registar o momento… e encher o copo (para desembuchar!). 
    Depois, mandou a foto que, agora, fotografada, 
serve para lembrar o momento e para cumprir a lembrança PPP. 
Zambujal

9. Teresa Silva



Restara apenas esta Igreja daquilo que fora a aldeia da Faia, a primeira aldeia a ser inundada para fazer uma barragem, nos longínquos anos 60 do século passado. Construíram uma nova aldeia e as pedras foram trazidas e colocadas de forma a ficar um templo igual, segundo informação de populares.
Teresa Silva