Belíssima fotografia que a Justine nos oferece para que nos sirva de inspiração.
quinta-feira, maio 31, 2012
AGENDA PARA JUNHO DE 2012
Dia
7 - Provérbios
Fotografados:
«Remenda
o teu pano, chegará para o ano. Torna a remendar, tornará a chegar»
(sugerido pela Jawaa)
Dia
14
– Reticências
com
a frase “Entretenho-me
a espreitar”
a iniciar o texto
Dia
21 - Com
as palavras dentro do olhar sobre
fotografia de Justine
Dia
28
- Fotografando
as palavras de outros sobre
este excerto belíssimo de um livro delicioso:
«O senhor Soares
percorre as áleas do Jardim da Estrela, o qual se estende como o
fantasma de um parque antigo, dos séculos antes do descontentamento
da alma. E enquanto os cisnes deslizam no espelho de água o senhor
Soares, contemplando-os com os olhos semifechados por detrás das
lentes, magica numa quermesse em que participam columbinas e pierrots
e arlequins. Observa a criança que apanhou um tabefe da mãe por ter
desejado mais um caramelo, e compadece-se do choro desabalado, vendo
nele a metáfora da condição de todos nós, ambiciosos de uma cor
inatingível, e do paladar que lhe corresponde. O senhor Soares
repara agora no soldado que passa o braço pelos ombros da criadita
no banco que fica à beira do canteiro de gladíolos, e inventa o
teor das cartas que os dois se trocam ao longo das semanas, e nas
quais se tratam por «meu adorado amor», «minha vida», e «riqueza
do meu coração». O senhor Soares leva os sapatos ligeiramente
cambados, a dobra das calças surradas pelo pó, e o cabelo ao léu,
mal lambido pela brilhantina. Aproxima-se de uma rapariga de
expressão azougada, uma dessas moreninhas que gostam de exteriorizar
uma certa malícia, simbolizada pela vírgula do penteado que se lhes
cola à testa. E tudo isto se mistura na minha visão, não sei bem
porquê, com um romance ancestral, em cujas linhas intervêm Hamlet e
Ofélia, heróis do grande Shakespeare, que só conheço de ouvir
falar. (...)»
Boa
noite, senhor Soares,
Mário Cláudio, Publicações Dom Quixote, 2008
O DESAFIO DESTA SEMANA
A resposta aí está:
Quinze interessantes interpretações dos excertos retirados do livro D.
Quixote de La Mancha,
(Versão de Aquilino Ribeiro), Miguel de Cervantes Saavedra, Bertrand
Editora.
quinta-feira, maio 24, 2012
AGENDA PARA MAIO DE 2012
Dia
31
- Fotografando
as palavras de outros sobre
alguns excertos do livro D.
Quixote, que
li há alguns anos com enorme prazer e um permanente sorriso nos
lábios. Desta vez o texto proposto é um pouco mais longo do que o
habitual mas foi-me difícil resistir a tamanha graça de pormenores
e de ironia que a leitura do livro me ofereceu. Independentemente
de complicar a resposta, claro, mas há que correr riscos. Para que
os riscos outros que nos ensombram os dias sejam de algum modo assim
atenuados.
«Em certo lugar da
Mancha, o nome amanhã o direi, vivia não há grandes anos um
fidalgo, destes velhos fidalgos de lança em armeiro, adarga antiga,
pileca à manjedoira e galgo corredor. Bons três quartos do
rendimento gastava-os no comer: cozido, obrigado mais vezes a vaca do
que a carneiro, com o infalível empadão dos sobejos à ceia, uma
fritada de ovos com miúdos e toicinho aos sábados, lentilhas às
sextas, e o seu borracho extra uns domingos por outros. O resto ia-se
no vestir: saio de velarte e calças de veludilho com pantufos do
mesmo pano nos dias santos; a cote, saragoça, embora da mais fina.
Tinha em casa uma
governanta, mais que quarentona, uma sobrinha que ainda não
completara vinte anos, e um moço para todo o serviço, que largava o
podão e ia selar-lhe o rocim. O nosso fidalgo andava à beira dos
cinquenta. Era rijo de têmpera, seco de carnes, rosto esfalcado,
grande madrugador e amigo de montear. (…)
Antes de ir mais longe
é preciso que se saiba que este fidalgo, sempre que estava ocioso, e
era a maior parte dos dias na roda do ano, ocupava-se em ler livros
de cavalaria com tanto afinco e regalo que descurou quase totalmente
o exercício da caça e o governo da fazenda. (…)
Em suma, o nosso
fidalgo embebeu-se tanto na leitura, que levava as noites a ler,
desde lusco-fusco a lusco-fusco (…) E assim, de pouco dormir e
muito ler, aconteceu ressecarem-se-lhe os miolos e toldar-se-lhe de
todo o juízo.
Povoou-se-lhe a
fantasia com tudo o que lia nos romances, encantamentos, pendências,
batalhas, desafios, lanhos dados e recebidos, requebros, amores,
tormentos e disparates impossíveis.»
Capítulo I
***************************
«Nisto descobriram os
trinta a quarenta moinhos de vento que há naquelas paragens. Mal D.
Quixote deu com os olhos neles, disse para o escudeiro:
- Estamos com sorte,
muito mais sorte do que aquilo que podíamos desejar. Abre-me os
olhos e repara... repara-me para aqueles trinta e tantos desaforados
gigantes! Vou-me a pelejar com eles e tirar-lhes a vida. (…)
- Atente bem, Vossa
Mercê. O que se descortina além fora não são gigantes, mas
moinhos de vento. E o que parecem braços não são senão as velas
que, sopradas pela aragem, fazem girar as mós. (...)
E
assim animado, encomendando-se do fundo do coração à sua senhora
Dulcineia para que lhe valesse naquele transe, bem abroquelado com a
rodela, lança em riste, arremeteu a galope dobrado do Rocinante
contra o moinho que lhe ficava
em face. No mesmo instante mesmo a vela recebia tão furioso açoite
do vento que lhe fez a lança em pedaços e, arrastando cavalo e
cavaleiro, atirou-os de escantilhão pelo campo fora. Sancho Pança
picou o burro na pressa de lhe acudir. O amo estava estatelado
debaixo do cavalo, incapaz de qualquer movimento.»
Capítulo VIII
D.
Quixote de La Mancha,
(Versão de Aquilino Ribeiro), Miguel de Cervantes Saavedra, Bertrand
Editora
"Fotodicionário", o desafio desta semana
"Renovação" foi a palavra inspiradora das 14 imagens desta semana abaixo expostas que, como habitualmente, têm o cunho de cada um dos seus autores. E, pelos vistos, ao meu rebelde computador agradou a proposta pois portou-se à altura da sua própria renovação interior permitindo que eu publicasse o que me apetecia. Espero então que a ela se acomode. Ou que seja coerente e continue a comportar-se de acordo com a escolha feita.
M
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