quinta-feira, julho 19, 2012

14. Zé-Viajante

Passo, de relance, e só vejo uma porta velha, duma casa velha e com muros velhos. Quando, mais atento, volto a passar, já vejo tudo por fora e por dentro. Aquela casa foi um autêntico palácio, de gente simples, humilde talvez, mas Verdadeira. Que criou raízes. Tal como a casa.
Zé-Viajante

13. Zambujal

Não é com as palavras que se bate à porta, mas com o punho, ou com os nós dos dedos.
De dentro, não vem o olhar porque a porta o impede, mas vêm as palavras: Quem é? 
De fora, cruzando-se com as palavras que de dentro vieram, logo as palavras respondem e atravessam a porta fechada: Sou eu, comadre! 
Trocadas as palavras, abre-se a porta e encontram-se os olhares.
Zambujal

12. Teresa Silva

Uma bela e misteriosa ruína. O que teria sido? Uma casa, um celeiro, um qualquer anexo? O que se esconde para lá da porta vermelha escura, já por si de cor insólita neste contexto? Valerá a pena "recuperar" para a modernidade este espaço? Ou será preferível não tocar em nada até que o tempo se encarregue de o ir destruindo sem, contudo, lhe tirar a beleza?
Teresa Silva

11. Rocha/Desenhamento

A porta, ainda viva e tratada, encerra uma casa antiga e modesta, pode estar a dizer-nos que alguém a fechou e saíu ou que a fechou depois de entrar. Alguém viverá isoladamente nesta pequena casa, lugar que nos deixa uma ideia de solidão, de interioridade, vida mais encoberta do que descoberta? Ou silêncio e vazio. Olhar e ver o real é um trajecto conceptual enganador. Um dia, fotografando casas arruinadas de uma aldeia do Algarve serrano, registei muitas portas fechadas, secas, rodeadas de um silêncio de assombro. Num caso, a porta ainda lembrava o seu vai-vem, entradas e saídas. Apetecia abrir a porta, espreitar, chamar por alguém. A porta cedeu facilmente, madeira rangendo por si e no chão. «Está alguém aí?»
Ninguém respondeu. Poeirenta e sombria por dentro, nunca ninguém mais responderia ao chamamento. Nem os ratos no rumor das suas furtivas corridas.
A imagem que vemos parece revelar a conservação da porta e a habitabilidade do seu interior, num contexto antigo e poético.
Olhar, ver, compreender. A percepção visual, por vezes, muitas vezes, parece revelar-nos uma coisa que não passa, afinal, do seu contrário.
Rocha de Sousa

10. ~pi

Do parto da parede se abriu a passagem - porta de ser porta, porta sem postigo, porta caladinha e remendada.
Confere os pés e ordena:
- Entra! - a porta
~pi

9. Mena M.

O amanhã é sempre uma porta fechada, a do ontem também já fechou. Por vezes vivemos "entre portas".
É nessas alturas que a erva cresce nas fendas das memórias...
Mena

8. Mac

As aldeias ficam vazias,Já não se ouve o riso das crianças,
Já não se sente o cheiro da comida ao lume...
Ficam apenas as portas trancadas, vigilantes silenciosas dos nossos passos...
Mac

7. M.

Oh! Que vejo eu ali?
Um retângulo de chocolate. Daqueles que desafiam a minha gulodice, embrulhados em papel de prata de chocolate culinário. Mesmo ali à beira do micro-ondas, para que não fiquem esquecidos. Depois da sopa amornada, depois do segundo prato estaladiço, a aguardar o momento da sobremesa dos meus almoços, logo atrás da fruta. Doçura indispensável. A barrar-me os dentes, a derreter-se-me na língua. A lembrar-me os irmãos Grimm e a história Hänsel und Gretel. Também ao meu redor esvoaçam passarinhos, entre o céu e os prédios altos presos à rua, e eu espreito-os. Pousam no parapeito exterior da janela da cozinha, a sacudir no bico alguma migalhita trazida de outro lado na pressa do voo. Mas, ao contrário dos dois irmãozinhos, por enquanto não preciso de espalhar migalhas de pão no caminho para o encontrar no regresso a casa. Quando, por distração, as deixo cair no chão, apanho-as logo. Com pá e vassoura. A pá e a vassoura usadas pela Cinderela nas tarefas caseiras impostas pela madrasta má e pelas irmãs invejosas?, perguntarão os leitores mais entusiastas de contos tradicionais. Não, esta pá e esta vassoura pertencem-me e juntam pedacinhos da minha infância retirados da imagem desse livro antigo de capa amarela brilhante onde uma jovem loira, com um vestido azul e sapatinhos de cristal, dançava nos braços de um príncipe encantado vestido de branco. 
Um vício diário o de comer retângulos de chocolate e desembrulhar memórias.
M

6. Luisa

Uma porta fechada há muito. Quem lá viveu? Quem lá sorriu? Quem lá chorou?
Luisa

5. Licínia

Passo a passo, pedra a pedra, casa a casa.
Desde a gruta, desde o bicho, desde a carne.
Assim se dizem as coisas. Assim se fazem as casas.
Assim se fecham as portas. Assim nos doem os dias.
Ombro a ombro, cara a cara, beijo a beijo.
Assim se fez o amor. Já não se faz o amor.
Resta a pedra sobre a pedra e a porta sempre fechada.
Cresce a erva, estala a cal, e o silêncio da ferrugem
é o sangue contra a porta. São os óxidos do tempo,
são as lágrimas viúvas, nevoeiros à desfilada
na garupa das cidades. Quase mortas as cidades.


Licínia Quitério

4. Justine

Por esta porta entrei na minha infância. Era exactamente assim, a entrada da casa. A porta fazia ruído ao abrir, mas lá dentro, no pátio, havia silêncio, flores e o Sady, sempre disposto a brincar comigo. A um canto, rente à parede de pedra, um manta onde descansávamos, eu a fingir que lia, ele a dormir. Era exactamente assim, a entrada da casa. Ou talvez não, mas é assim que a recordo…
Justine

3. Jawaa

As telhas que cobrem a casa, os beirados, aquele arranjo de zinco a recolher as águas, a cal da parede descuidada a deixar transparecer remendos de cimento, os cactos enfeitando as pedras, os degraus pesados, tudo me é familiar como a roupa de todos os dias.
Só aquela porta fechada me incomoda.
Jawaa

2. Bettips

Não vale a pena! Não posso virar a cara!
Qualquer porta fechada, ou casa abandonada à minha frente, me dão vontade de espreitar: se alguém estiver a jeito, até pergunto "como, quando, porquê".
Ora aí está um murete baixo, um degrau, de onde poderei avistar um gato, um toco de videira, uma roda ferrugenta de tirar água dum poço, um lixo disperso que me falará eventualmente "do tempo", dos desaparecidos habitantes, de misérias ou luxos esquecidos.
Curiosa da vida dos outros? Não sou: curiosa das coisas, serei!
***
Relembro uma coisa fantástica que me (nos) aconteceu em férias, há mais de duas décadas. Visitei o Palácio de Estói (agora "Pousada de Faro" de algumas estrelas), completamente arruinado mas com fachadas, estátuas e jardins lindíssimos, falando com o guarda que lá estava na altura...
Evidentemente que fico agradada que tenha sido recuperado mas em "pousada de luxo" só se lá passar "for a drink". Pois fico com a memória da minha curiosidade satisfeita (com fotografias, claro).
E tudo a propósito de portas e casas abandonadas - para não me lançar ou enveredar pelos meus costumados e antiquados "não há direito"!
***
Assim, Licínia, contarás a história que saberás estar atrás dessa porta cor de sangue velho?
Bettips

1. Benó

Uma parede, um muro unicamente decorado com esta chapa de ferro. Que se guardará ou esconderá por detrás desta porta? Nem um postigo ou uma janela com cortinas e até poderia ser a casa da Mariquinhas. Mas a natureza quis dar um pouco de vida às pedras que lhe servem de adorno. Pedras que, certamente já foram testemunhas de muita negociata, segredos, coscuvilhices e, por isso, colocou sementes entre elas de onde brotaram tufos de ervas que até poderão florir.
Para lá desta porta tudo é sossego e esquecimento.
Benó

quinta-feira, julho 12, 2012

«COM AS PALAVRAS DENTRO DO OLHAR»


Será esta belíssima fotografia da Licínia que inspirará os nossos textos, a publicar no dia 19 de julho.

O DESAFIO DESTA SEMANA

O desafio Reticências de hoje, expresso mais abaixo pelas 12 fotografias  e pelos 12 textos devidamente identificados, foi baseado na frase "Há muito que sabemos".

12. Zé-Viajante


Há muito que sabemos que nem tudo é feio, de mau gosto e triste (embora tudo indique que nos querem levar para lá).
Aqui, de uma antiga drogaria (as saudades, e a falta que ela faz) foi aproveitado todo o ambiente, mantido o nome, com um adicional, e ficou uma loja linda. Assim vale a pena acreditar que há gente que sabe conservar o que é belo. 
Zé-Viajante

11. Zambujal



Há muito que sabemos… que sabemos pouco.
Mas há muito que sabemos tudo
por sabermos que tão pouco sabemos.
(Ah! Se eu não morresse nunca! E eternamente
buscasse e conseguisse a perfeição das cousas…)

No dia em que alguém te ama… o sol brilha
(não sei dizer melhor…).
No dia em que te ama quem tu amas…
mesmo que chova e faça frio, o sol aquece.

Em todos os dias que lutas
(e tens de lutar todos os dias para humano seres)
aprendes que tens muito para ensinar
e que tens muito mais para aprender

A mim, há coisas que ainda me espantam na vida;
eu, que estou no inverno da minha vida,
esqueço-me de tardes de tristeza e de amargura
mas nunca de uma manhã de amor e de ternura.

Por outras vias do que ouço e sei,
sei que, afinal, nunca esqueço nada,
mas sei também que me habituei
a viver com as lembranças e com o que nunca esqueço.

Durante anos e anos, eu dizia: “eu sei!
Só que, quanto mais vivia, mais longe sabia estar de tudo saber.
Agora, que setenta e algumas vezes badalou o meu relógio,
ainda vou à janela, e olho, e procuro, e me interrogo.

Agora, eu sei há muito… que sabemos pouco,
e sei que nunca saberemos tudo!,
da vida, das flores, dos amigos, dos amores,
(das coisas, dos seus sons, das suas cores)

É tudo o que sabemos…
ah! mas isso eu sei!

(uma misturada de
Dabadie, Gabin, Cesário, Brel
e sei-lá-quem-mais lido e ouvido!)


Zambujal

10. Rocha/Desenhamento


Há muito que sabemos quanto o nosso olhar transporta para os milhões de nichos do cérebro as imagens do real, coisas que voltam por vezes à superfície da nossa consciência em metamorfoses que relevam porventura do subconsciente, figuras sobrepostas, manchas, restos de oceanos, cores inusitadas. Neste caso, ao rebuscar nas gavetas fotografias onde fora tentada a ilustração desse fenómeno, aqui estamos suspensos de vários registos de tempos, lugares ou coisas diferentes: há os restos ou ruína de um cargueiro encalhado na lama, projectando sombras sobre o ondular contrastante de um mar à flor da terra, enquanto o céu se substitui pela dobras redondas de um grande pano rosado, mortalha da lírica e dos finais encantatórios, como num fotograma de cinema, como na lágrima múltipla da saudade. 
Rocha de Sousa

9. ~pi

 
Há muito que sabemos que nos passa ao lado o registo das horas vividas no livro das horas. Desde sempre pressentimos a fundação essencial dos limites do corpo contida nos abraços, que encerramos a medo, confundidos e trocados por hesitações dum pasmo venenoso e fatal.

Revestimo-nos, por engano, com o forno do corredor das estrelas, desejámos na pele o vagaroso cetim violeta que forra as nebulosas que nunca adormecem, filhas do outro tempo dentro do tempo, colibris de luz, sonhámos eternos os vazios todos desse espaço aberto sem nenhum lugar e abrimos a boca como quem se salva.
~pi